sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Um Beatle em Recife

Em 1974 eu comprei um disco do Ringo Starr, chamado simplesmente "Ringo", que, além de ser considerado por muitos o melhor da carreira solo do ex-baterista dos Beatles, quase se transformou em uma reunião da banda mais famosa do rock, que havia acabado em 1970. Afinal, John, Paul e George haviam aparecido para dar "uma mãozinha" ao velho companheiro. Uma das faixas do disco, "I'm The Greatest", escrita por John Lennon, chegou mesmo a ter a participação de três beatles tocando juntos: John, George e, claro, Ringo.

Carregando o "Ringo" pra casa (nessa época eu morava em João Pessoa), animado com mais um disco na minha cada vez mais crescente coleção de discos dos Beatles (juntos ou separados), eu jamais sonharia que, em um longínquo 2011, eu estaria me preparando para ir ver o mesmo Ringo Starr, ao vivo, na cidade onde moro (hoje, Recife). Eu não teria acreditado. Mas, é verdade. E, apesar da pouca divulgação por aqui (nem um mísero anúncio de destaque na entrada do Chevrolet Hall, lugar do show, havia sido afixado pelo menos até hoje cedo), Ringo, de 71 anos, está mesmo chegando.

Dono de uma carreira errática após a conturbada dissolução dos Beatles, o baterista oscilou inicialmente entre atuar em filmes classe "B", gravar discos (o que ele fez com uma frequência bem maior do que muitos pensam - um a cada dois ou três anos em média), e aparecer, junto com a esposa e ex-Bond girl Barbara Bach, nas manchetes dos jornais por causa de problemas com o álcool. Ringo nunca foi o mais talentoso dos Beatles, mas seu carisma e seu jeito engraçado lhe garantiram um lugar no coração dos fãs dos rapazes de Liverpool.

Talvez, o maior sucesso da sua carreira solo tenha sido "It Don't Come Easy", música que lançou ainda em 1971 e que abre os shows da sua turnê atual. Aliás, olhando o setlist, percebo que Ringo Starr subestima o poder de muitas das canções que gravou. E como é sua primeira vez na nossa terrinha, acho que algumas dessas músicas não poderiam faltar de jeito nenhum. É o caso, por exemplo, de "What Goes Around", "King of Broken Hearts", "Don't Go Where The Road Don't Go" e "Don't Know a Thing About Love", todas editadas nos anos 90, época em que o ex-beatle gravou alguns de seus melhores discos como o "Time Takes Time" e "Vertical Man". O mesmo acontece com as canções que fez ou interpretou na época dos Beatles: de maneira inexplicável, estão de fora "Octopus's Garden" e "Don't Pass Me By", que vinham sendo executadas em todas as suas turnês anteriores. Como se Ringo tivesse "aquele" repertório de onde selecionar canções (apesar da grande quantidade de discos, a maioria é bem fraquinha)... Um pecado. Mas, estão lá "Yelllow Submarine", "Honey Don't", "I Wanna Be Your Man", e até uma citação a Lennon, "Give Peace a Chance". Calma, calma, claro que não poderia faltar (essa não poderia faltar mesmo!) "With a Little Help From My Friends".

E por falar em ajudinha dos amigos, Ringo segue apostando na fórmula adotada desde o início dos anos 80, quando passou a excursionar sempre cercado de amigos, invariavelmente astros do rock com carreira consolidada, tais como Jack Bruce, Peter Frampton, Billy Preston, Jim Keltner, Dr. John e muitos outros. Desta vez, a All-Star Band de Ringo ataca com Edgar Winter, Gregg Bissonette e Mark Rivera dentre outras feras. Por exemplo, uma hora Ringo sai dos holofotes para que brilhe gente como Rick Derringer, cantando "Hang On Sloopy", sucesso traduzido no Brasil para "Pobre Menina", de Leno e Lilian, nos anos 60; em outro momento do show, quem se destaca é Richard Page (do grupo Mr. Mister), que canta o megasucesso "Broken Wings".

Que ninguém saia de casa no domingo 20 achando que vai ver algo parecido a um show de Paul McCartney, o outro beatle aindo vivo e firme em ação - o velho companheiro de Ringo segue imbatível em sua missão de levar adiante a obra dos Beatles (boa parte dela, composta por ele). Ringo canta algumas músicas, toca bateria em outras, divide o show com os seus amigos, solta algumas piadas prontas e acena o clássico "paz e amor" dezenas de vezes, numa apresentação competente e festeira. Ele é um beatle, minha gente. É uma lenda viva, que deve ser respeitada. Não é todo dia que isso acontece.

Ringo Starr vem ao Recife para encerrar esta sua primeira vez no Brasil. O baterista aterrissa na terra do frevo após passar por Porto Alegre (10/11), São Paulo (12 e 13/11), Rio de Janeiro (15/11), Belo Horizonte (16/11) e Brasília (18/11). Curta abaixo fotos do show do dia 13 de novembro em São Paulo.











Fotos: Bianca Gonçalves


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